Nepal: 33 milhões de deuses, 30 milhões de habitantes

namaste

Acho engraçado quando perguntam se a gente foi fazer uma viagem religiosa. Primeiro, porque acho as praias e/ou festas contaram muito mais que os templos na escolha dos países (menos no caso do Cambodia) e segundo porque não sou uma pessoa religiosa. Mas, mesmo sem querer, acabamos indo para países em que a religião está em primeiro plano na vida cotidiana das pessoas, desde a forma de vestir até o jeito de comer, então acabou sendo uma viagem “religiosa” porque acabamos visitando um milhão de templos e tentando entender o que estava por trás de comportamentos inexplicáveis (e a religião às vezes tinha a ver com isso).

6 da manhã na frente da nossa guest house - pessoal acordadão e de oração matinal feita

Já começamos a viagem por um país super religioso, o Nepal. 15 dias não foram o suficiente para entender as crenças religiosas nepalesas (não consegui entender completamente nem o casamento, nem a lógica do cronograma do corte de luz diário), então aí vão algumas impressões e curiosidades:

– o país conta com 33 milhões deuses e deusas para 30 milhões de habitantes – também é conhecido como Nepal, terra dos deuses (mesmo quando a gente ia a um templo grande eu tentava acertar quais eram os deuses e chutava os clássicos: Shiva, Ganesha, Sarasvati e nunca eram eles, o panteão nepalês permanece um mistério)

deuses no Templo dos Macacos - Swayambhunath

– a maioria da população nepalesa é hindu (cerca de 80%) ou budista (10%) e o restante está dividido entre tantra, islamismo e cristianismo (eu achava que o budismo era mais presente, talvez porque atualmente, uma das concentrações de budistas fica no vale do Katmandu, principalmente entre a comunidade newari)

– o hinduismo e o budismo estão muito interligados, hindus vão a templos budistas e vice-versa e as pessoas que se declaram hindus nos censos podem ser consideradas budistas em certos aspectos

– tem templos, estátuas de deuses, oratórios e oferendas espalhados por todo lugar, praticamente em toda esquina tem pelo menos um mini-oratório (da Guest House até a casa da nossa amiga eram 10 minutos andando e a gente passava por pelo menos 5 templos locais) e as pessoas acordam beeem cedo, lá pelas 5 da manhã para fazer suas oferendas nos templos e na frente das casas

mini-templo local

templo médio, na esquina da nossa Guest House

um dos templos locais maiores que visitamos no primeiro dia

mais um dos templos locais maiores que visitamos no primeiro dia

mais um templo

e mais um (no final do dia, os meninos falaram: tem mais 12 desses pra ver nos outros dias, mas agora a gente tem q ir pro casamento - e eles estavam contando só os de Lalitpur, ainda tem os de Kathmandu e dos de Bakhtapur)

– Buda nasceu no Nepal, onde é hoje Lumbini. A visita aos templos budistas, que deve ser feita no sentido horário,  é bem alegre e simpática, começando pelas estupas com os olhos do Buda, pelas bandeirinhas de oração e pelas rodas de oração super lúdicas

Lumbini - dentro do templo tem uma pedra marcando o local do nascimento

Boudanath - as estupas são representações arquitetônicas do cosmo e aqueles olhos simpáticos são os olhos de Buda ou os olhos da sabedoria e o nariz espiral é o caracter nepali para o número 1, que simboliza a união de todas as coisas, bem como a uma maneira de alcançar a iluminação, através de ensinamentos budistas, com o detalhe do terceiro olho simbolizando a sabedoria que tudo vê

as bandeirinhas de oração são usadas para promover a paz, compaixão, força e sabedoria, elas tem preces e mantras que são soprados pelo vendo para espalhar a boa vontade e a compaixão ao seu redor

a suástica budista representa o Dharma, a harmonia universal, o equilíbrio dos opostos - o símbolo virado à esquerda representa amor e piedade; voltado para a direita é força e inteligência

rodinhas para girar no templo - também devem ser giradas no sentido horário e purificam quem gira, pois tem o mesmo efeito de recitar os mantras escritos nelas (tradicionalmente Om Mani Padme Hum, o mantra de 6 sílabas da compaixão)

– templos hindus são interessantes de uma maneira, ahn, diferente, são menos acessíveis que os budistas (em alguns, somente hindus podem entrar, em Pashupati tinha até homens armados na frente do templo de Shiva), e também são mais assustadores, com os sadhus e cadáveres sendo cremados ao ar livre

Sadhus em Pashupati - o sadhu é um asceta que busca o 4.o e final objetivo hindu, a liberação, através da meditação e contemplação de Brama - eles vivem em florestas, cavernas, cemitérios e templos e são reverenciados com doações e temidos pelas suas maldições, alguns se cobrem com cinzas humanas

cada fogueirinha é um corpo sendo cremado, imagina o cheiro do lugar - anyway, no hinduismo a cremação é obrigatória pq o corpo é o instrumento que carrega a alma, mas nem sempre a cremação é feita ao ar livre

– as estátuas de deuses são lindas e não são caras, mas não dá pode comprar e mandar por Fedex, porque aparentemente fica a suspeita de tráfico de drogas dentro da dita cuja

estátua da Green Tara que eu comprei e tive que carregar comigo até o fim da viagem

– eles tem deusas vivas, as Kumaris, que podem garantir sorte com apenas um olhar, são homenageadas em festivais, adoradas e reverenciadas por todos, até pelo rei
Quando a Kumari atual menstrua deixa de ser deusa e é feita uma seleção  entre meninas de 3 ou 4 anos do clã Shakya (clã a que pertencia Buda) considerando 32 qualidades exigidas: pele perfeita, sem nenhuma cicatriz; traços particularmente finos; personalidade angelical… depois de avaliada pelo astrólogo real, a escolhida é submetida a prova final: a criança é trancada em uma sala do templo cheia de cabeças de animais ensangüentadas: se ela se mostrar amedrontada ou chorar, não pode ser deusa

Kumari Devi - a menina deusa, essa é a de Patan

vídeo sobre a Kumari

Sites sobre religião no Nepal:

http://nepal.saarctourism.org/nepal-religion.html

http://www.thamel.com/htms/religions.htm

http://countrystudies.us/nepal/33.htm

http://hinduism.about.com/cs/godsgoddess/a/aa090903a.htm

Artigo da Marie Claire sobre as Kumaris: http://marieclaire.globo.com/edic/ed107/rep_deusa1.htm

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3 thoughts on “Nepal: 33 milhões de deuses, 30 milhões de habitantes

  1. isso seria impossivel voce conhecer um pais tao cheio de crencas em tao pouco tempo. As criancas nao tem trauma nenhum… isso e uma tradicao elas sao preparadas para isso. Em quanto outros povos estao preocupados apenas com a beleza exterior e com bens materias esse povo no Nepal dedica se a cuidar da alma, voce nao ve tanta criminalidade e adulterio no Nepal como ve em qualquer outro lugar do mundo eles adoram a familia e veneram, o casamento e algo muito puro. os templos sao para todo momento lembrarem que nao estao so tudo que se faz aqui tem consequencia astral. seja ela qual for. por isso se quizer saber mais sobre o Nepal voce tem que se dedicar muito mais tempo e com uma mente aberta e nao critica. E um pais pobre de gente rica. Um povo que ainda nao esta corrompido com a ganancia.

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    1. oi, Thatianne, obrigada por comentar e por me levar a reler esse texto e lembrar dos nossos dias no Nepal.
      concordo com voce, como eu disse no post, 15 dias nao foram suficientes para entender as crencas religiosas nepalesas, considero que eles tem uma visao de mundo muito diferente da nossa, brasileira, e em tao pouco tempo, meus paradigmas nao me deixaram penetrar na experiencia deles mesmo, foi uma experiencia de observadora, que teve contato com aspectos superficiais e mais a vista da cultura, fascinante, e que gerou as impressoes e curiosidades que listei no post (não tive intenção de crítica em nenhum momento, admiro muito o povo e a cultura nepalesas)
      ate arrepiei com uma parte do seu comentario: “é um país pobre de gente rica. um pouco que ainda nao esta corrompido com a ganancia”. você colocou em palavras uma sensação da viagem que eu ainda nao tinha processado conscientemente.
      o país é muito pobre, do ponto de vista de desenvolvimento economico, viamos pilhas de lixo no meio da cidade, o salário médio é muito baixo, a capital do pais nao tem energia eletrica o dia todo, mas a sensação que eu tive mais forte lá foi de satisfação e paz, não de necessidade de mais. nos sentíamos super seguras e foi o país que os locais menos colocavam preços exorbitantes para turistas.
      você teve a oportunidade de passar mais tempo no Nepal? gostaria de contar sua experiência em um post?
      sds,

      Mariana

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